quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Serviço Militar: a segurança do Brasil em nossas mãos!

"Papai, não quero provar nada! Eu já servi à Pátria Amada e todo mundo cobra a minha luz!"
(Raul Seixas)

Daqui a alguns dias completará dois anos que fui dispensado do serviço militar. Sim, meus caros, eu servi sim. E tem cada estória bizarra que tenho até medo de colocar aqui. Mas vamos lá.

Em dezembro de 1987, estava para vir ao mundo... Ok, sem embaraços. Dia 10/12/2005 eu completei 18 anos de idade. Fim do ano, que coisa chata! Isso me forçou o alistamento no início deste mesmo ano citado. Eu era um menino ainda! Não podia ficar fazendo essas coisas. Em março eu fui fazer o bendito alistamento militar, crendo que a audiometria que eu segurava em minhas mãos me salvaria de algo. Doce ilusão! No alistamento eles não querem nem saber se você é surdo ou manco, apenas nome, idade, cor, endereço e tipo de cabelo (sim!! eles marcam o tipo de cabelo no CAM (Cédula de Alistamento Militar). Fui embora em menos de 30 minutos depois, com um carimbo de intimação para voltar em junho.

Então, no mês seis, estava eu ali, parado numa fila enorme e cheia de moleque. Uma hora depois, entramos na sub-prefeitura. Ficamos no estacionamento onde uma enorme bandeira do Brasil estava hasteada. Tinham vários viados ali (ou fingindo ser viado porque, como alguns sabem, homossexuais são dispensados logo de cara, tendo que carregar essa opção sexual no documento de Reservista). Tinham outros com caras de loucos e livros na mão, com carteirinhas da USP penduradas no pescoço. Tinham outros caras bem normais, tinham outros bem moleques e por fim, tinha eu. No meio daquela galera.

Um homem que fuma feito um desgraçado e solta fumaça por tudo que é orifício (DO ROSTO), passou recolhendo o CAM dos moleques que ali estavam enquanto dava esporro nos que cuidavam mal de tal documento. Chegando em mim, ao entregar o papelzinho para o homem, eu disse de modo inocente e calmo: "Eu sou surdo". Ele olhou pra mim, soltou mais fumaça pelas ventas e disse: "E o que eu tenho a ver com isso?". Poderia ter ficado sem essa.

Esperamos mais duas horas, mais ou menos. Depois disso, uma velha mulher chegou na frente de todo mundo e disse: "O nome que eu chamar aqui pode pegar o CAM e sair pelo lado esquerdo. Não quero ouvir nenhuma reclamação ou grito de vitória aqui, apenas saia e comemore lá fora". Então fiquei eu ali esperando o meu nome ser chamado. Eu JURO que rezei tanto pro meu nome estar lá, que Deus deve ter olhado e falado: "Já que você quer seu nome ali, então vai! Mas depois agüente as conseqüenciasssss, viu?". Quase pulei quando, na antepenúltima folha, o nome "Ariel Salgado" foi chamado. Maravilha! Saí correndo, peguei meu CAM e fui comemorar lá fora. Ué, mas não tinha ninguém feliz do lado de fora. Virei a folinha e quase morri: "Convocado para comparecer tal dia no 2º Batalhão da Polícia do Exército - Osasco". Ué, mas não era pra ser dispensado? Não. Ah, se eu soubesse nem teria rezado!

Muito bem, vamos lá então! Melhor do que ser preso. No dia marcado, acordei às 3:47 da madrugada e fui pra Osasco. Cheguei nos portões do batalhão às 5:30, faltando 30 minutos pra entrar. E repeti isso mais algumas vezes durante o ano, fazendo vários testes, escritos e práticos, testando minha inteligência e minha resistência. Até que um dia, atrás do meu CAM, veio um carimbo diferente: "Comparecer tal data e hora no Centro de Preparo de Oficiais da Reserva em Santana". Oficiais da Reserva? O que é isso? Parceiro, quando eu soube que era um grupo seleto de soldados de alto desenvolvimento, logo mudei minha opinião. Eu queria entrar! Queria mesmo! Foi aí que conheci o Murphy. Dois dia antes, o infeliz me proporcionou uma p*ta de uma virose que me deixou de cama no dia seguinte. E olha que eu tinha treinado pra carambra pra entrar pra CPOR. No dia da apresentação, beleza, eu consegui ir, bebendo muito suco de maçã pra seguar o intistino. Mas ainda estava fraco, fazer o quê?

É como se eu estivesse no treinamento pra entrar pro BOPE. Faltou o comandante dizer que nós não éramos bem-vindos ali e que nossos corpos já não nos pertencem. Primeira tarefa: correr em 8 segundos uma distância de alguns metros. Eu nem lembro quantos metros eram, mas era bastante. Fí-lo. Depois, tínhamos que dar 14 voltas em 12 minutos em um pátio de mais de 50 metros. Cheguei para o comandante e dei a explanação. Ele disse que levaria esta virose em consideração. Comecei a correr então. Primeira volta, tranqüilo. Segunda volta, tranqüilo. Terceira volta, capenga. Quarta volta, desmaiando. Quinta volta, tudo escuro. Sexta volta, eu vi Deus. Sétima volta, tudo o que eu ouvia era um soldado gritando comigo "Pede pra sair!". Ok, não era isso, mas era "Desista antes que você caia!". Mas eu não desisti. Continuei correndo ali, sem parar. Na oitava volta, eu ouvi o comandante gritando "Falta três minutos!". Na nona volta, o caboclo corredor baixou em mim e não sei o que aconteceu comigo até o término da décima quarta volta, onde eu voltei pro meu corpo e ouvi o comandante dizendo "trinta segundos!". Uau, devo ter corrido demais. Mas estava morto. Não dava mais pra mim, juro. Passado 2 minutos para a recomposição, flexão de braço! Ah, sem sentido eu tentar fazer uma coisa dessas. Dez, eu disse DEZ flexõezinhas. Eu até conseguiria fazer, mas era no comando do fanfarrão ali da frente que dizia: SOBE...DESCE! Subia, ficava parado alguns segundos e depois descia. Nem deu, ó!

O resultado veio depois: Não classificado, comparecer ao batalhão da Polícia do Exército. E ainda ia levar em consideração a minha virose com atestado e tudo, né? Malditos!

Despreocupei. Afinal, eu teria que voltar só no ano conseguinte. Fui na data chamada e mais um pouco do contingente havia sido dispensado. Eu fiquei. E desta vez era sério. Servi mesmo e tinha que estar lá todos os dias a partir da próxima semana, fardado de camisa branca e calça jeans azul. Oh, catástrofe! Espera, eu sou surdo!!

Na terça-feira nós fizemos um último exame médico que comprovou que alguns ali tinham problemas tão sérios que eram pra ser dispensados logo de cara, mas não foram. Eu mostrei minha audiometria para o médico. Ele perguntou "Você quer servir?". Claro que eu disse que não. Ele assinou um papel e encaminhou para a administração. No final do dia, saiu a lista de classificados para a permanência no contingente. E adivinhem: eu fiquei! Não, não fui dispensado, imagine! Se eu fosse dispensado, estaria tudo bem, daria tudo certo. Mas lembrem-se: nada dá muito certo comigo. Então esqueçam! Não fui dispensado e ponto.

Experimentei farda, quepe, cuturnos. Tinha tudo rabiscado do meu tamanho certinho lá. Fiz treinamento, cantei o hino nacional umas vinte vezes por minuto (porque a cada momento que um simples indigente cantava "Em teu seioS, ó liberdade!" o fiduma égua mandava parar e voltar gritando "NÃO É SEIOS!! É SEIO! SEIO!!!"). Corri pelo batalhão gritando "É bom porque é ruim! Seria melhor se fosse pior!" e fiz algumas amizades. O Sargento Cenoura (apelido este porque o corpo dele parecia uma cenoura: grande em cima e pequeno embaixo, lembrando o Johnny Bravo) era o mais chato. Ele pegava no pé de muita gente, principalmente dos mais moleques. "Tá apoiado assim porque? Onde você pensa que tá, na praia?" ou "Levanta! Senta! Levanta de novo! Tá rindo por quê? Tira esse sorriso da cara, moleque!" eram os preferidos bordões dele. Mas tinham uns legais também, como o Tenente e o Segundo Tenente.

Quinta-feira estávamos no pátio conversando em sentido descansado, antes de começar. Foi então que o Tenente chegou.
TENENTE: Atençãaaaao!! SENTIDO!! Quem aí é Ariel Salgado?
EU: Sou eu, senhor! *levantando o braço esquerdo com punho fechado*
TENENTE: Qual o problema que você disse que tinha?
EU: Sou surdo, senhor!
TENENTE: Você é surdo?!
EU: Sim, senhor!
TENENTE: ENTÃO COMÉ QUE CÊ TÁ ME OUVINDO, PORRA?!?!
CABOS QUE FAZIAM ESCOLTA: Milagre!! É milagre!! MILAGRE DE JESUS!!
INVEJOSOS: Olha só a do cara! Tem gente que faz de tudo mesmo pra sair fora hein!

Nesse momento todos começaram a rir. Inclusive o Tenente. Ele aproximou-se de mim e perguntou:
TENENTE: Você é surdo mesmo? Tá me ouvindo por quê? É Jesus?
EU: Não senhor!
TENENTE: Me explica essa porra direito então!
EU: Eu sou surdo do lado esquerdo, senhor!
TENENTE: Aaahh! Agora está explicado! Só do lado esquerdo?
EU: Sim, senhor.
TENENTE: E no que isso te atrapalha?
EU: Muita pressão no ouvido direito, não posso mergulhar e nem ouvir sons fortes.
TENENTE: Tipo estampido de tiro?
EU: Exatamente.
TENENTE: E está com o exame aí?
EU: Sim, senhor! *entregando a audiometria que eu levava todos os dias na esperança de ser dispensado*
TENENTE: Huum... Interessante! Mas eu não estou entendendo porra nenhuma do que tá escrito aqui. Faz o seguinte: tá vendo aquela porta ali? Entra, fala com o médico. Se ele achar que deve te dispensar, amanhã você volta pra assinar a dispensa.
EU: Sim, senhor! *não podendo esconder meu sorriso de felicidade*

Mas ainda tinha um problema. Eu já tinha falado com o médico e ele não tinha me dispensado. E agora, o que eu faço? Simplesmente estou cumprindo ordens de superiores. Olha só, é outro médico! Jóia, vou falar com este mesmo.

Na sexta-feira estava eu lá feliz e contente da vida. Finalmente fui dispensado. Aahh, livre! Livre! Só jurar bandeira e finalmente estarei livre e desempedido para procurar um trabalho (que viria alguns dias depois) e a faculdade (que viria um ano depois)! Aleluia!