terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Conformidade e Realidade

A filha de Marcus completava três dias de coma no hospital. Contraíra uma violenta infecção intestinal que se alastrou pelo corpo, através de bactérias, comendo em um restaurante desconhecido que pouco tempo depois foi fechado pela vigilância sanitária. O médico não dava muitas esperanças e nem muito tempo de vida. Marina era a única família de Marcus que não teve uma vida tão fácil.
Enxugando as lágrimas, ele saiu do hospital desconsolado. Ele estava controlando seu próprio desespero que explodia dentro de seu coração, apertando-o forte, muito forte.
Na mesma noite, Marcus teve um sonho. Um homem vestido com uma calça e um sobretudo azul-celeste e camisa branca aparecia na frente dele. Seu rosto não se podia enxergar direito, mas seus olhos eram profundos, hipnotizantes. Lisos cabelos brancos e longa barba cinza, possuía um calor que o próprio Marcus sentia, mesmo sonhando. As jóias de ouro que ele usava também chamavam muito a atenção do homem. Encontrava-se sentado em um trono de vidro.
- Bem-vindo sejas tu, Marcus. - disse a voz grave e profunda do homem.
- Onde estou? - perguntou o rapaz, confuso.
- Aqui é o tudo e o nada ao mesmo tempo. O céu e o inferno, o astral e o físico, material e imaginário. Aqui é minha casa. Entre, por favor. Fique à vontade.
Marcus deu um passo pra frente e sentiu o chão branco amortecendo seus passos. Olhou mais uma vez para o ser que estava a sua frente que disse:
- As pessoas que vêm até minha casa não vêm à toa. Explique o motivo de teu desespero.
- Minha filha... Ela está realmente muito ruim. Ela é o último pedaço de minha família que restou neste mundo. Eu não sei mais o que faço. - respondeu o homem, chorando.
- Marcus, aqui é meu mundo, minha casa. Posso fazer o que eu quiser, mudar o que eu quiser. E o que eu quero talvez seja o mesmo que tu queiras. Diga-me, o que faria se pudesses desejar qualquer coisa?
- Voltar no tempo e nunca ter ido àquele restaurante! - respondeu Marcus, sem nem pensar.
- Muito bem, então que assim seja. Acorde agora e sinta-se livre de teu desespero!
Um barulho soou alto e Marcus acordou. Suado, respirando forte. Olhou em volta. Fazia muito tempo que não dormia, mas naquele dia dormiu até demais. Sentou-se na cama e ficou lembrando do sonho estranho que teve. Foi quando alguém bateu em sua porta. "Ué, quem entrou aqui?" pensou ele. Foi quando uma voz de menina gritou do lado de fora:
- Pai! Pai! Acorda, a gente vai se atrasar!
Marcus achou que ainda estivesse sonhando. Jamais pôde imaginar que aquilo era real. Mas era. Rapidamente ele abriu a porta do quarto e abraçou sua filha com uma enorme força, como nunca havia feito antes. Em lágrimas, disse:
- Parabéns minha filha! Feliz aniversário!
- O-obrigada! - respondeu a menina que completava 14 anos de idade.
Os dois tomaram café, saíram e foram comemorar naquele domingo ensolarado. Marcus estava sem o peso nas costas, seu coração explodia e tudo agora fazia mais sentido pra ele, que nunca acreditou muito em "energias superiores".
Chegando a hora do almoço, eles olharam para o primeiro restaurante. Imediatamente Marcus disse:
- Não, vamos procurar outro lugar. Não gostei muito deste. Olha, ali do outro lado da rua tem uma lanchonete. Vamos pra lá!
A garota aceitou. Os dois se prepararam para atravessar. Ao longe, um motoqueiro vinha, o que fez com que Marcus e Marina dessem uma pequena corrida para alcançarem o final da rua. Mas o cadarço da menina estava desamarrado, o que fez ela cair. O motoqueiro, que vinha em velocidade, estava distraído e não viu quando a moto colidiu com o corpo da garota. Os dois, Marina e motoqueiro, rolaram alguns metros, sendo golpeados pela moto que ainda estava ligada e quente. Sem chances.
Foi uma noite extremamente difícil para Marcus. A filha não tinha resistido e morreu poucos minutos depois do acidente. À base de muito calmante e tranqüilizante, Marcus, com os olhos pesados de tanto chorar, adormeceu. E foi novamente que aquele velho homem apareceu:
- Marcus. Tu viestes de novo aqui? O que houve?
- Eu não acredito. Eu tive mais uma chance, mas ela se foi. Como isso aconteceu?
- Às vezes temos que acreditar que o que é pra ser, será. E apenas conformar com a realidade.
Marcus não pôde fazer nada naquele momento. Apenas chorava.
- Tu sabes que este é o meu mundo e minha casa. E que o que eu quero talvez seja a mesma coisa que tu queiras. E então?
- Por favor, dê-me mais uma chance! Só mais uma!
O velho homem sorriu e fechou os olhos. O mesmo som soou e Marcus acordou com sua filha batendo a porta. Mais um encontro emocionante.
- A gente vai se atrasar, pai!
- Filha, tudo bem se mudarmos de plano?
A garota no princípio não gostou muito da idéia, mas depois aderiu. Foram ao parque passear e andar um pouco. Pedalaram bicicleta, fizeram pique-nique e tomaram sol. No final da tarde eles encontravam-se em cima de uma ponte que ficava em cima de um rio. Os dois estavam debruçados na sacada. Marcus sorria e gozava do domingo curtido com sua filha. Foi quando a ponte balançou. Imediatamente ele desencostou do apoio, mas Marina não. A sacada inteira caiu no rio, junto com a garota que foi levada pela correnteza.
Algumas horas depois, os bombeiros encontraram o corpo dela. Mais uma vez uma difícil barra enfrentada por Marcus. Foram algumas noites de lágrimas correntes e milhões de pensamentos que o fizeram finalmente cair no sono para encontrar novamente com Ele.
- Marcus!
- Novamente eu falhei. Novamente.
- Teu desespero te trouxe aqui novamente. Sabes que esta é a última vez que poderás entrar em minha casa, não é?
- Imaginei, senhor.
- Sabes também que eu sou o dono, então posso mudar do jeito que eu quiser, não é?
- Sim, senhor.
- Tu sabes que este é o meu mundo e minha casa. E que o que eu quero talvez seja a mesma coisa que tu queiras. Então diga-me, o que queres?
- Senhor, o que você quer, é o mesmo que eu quero. Dê-me a conformidade, a sabedoria para enfrentar o meu sofrimento e levantar a cabeça pra vencer o desafio.
O velho homem sorriu. Levantou-se do trono e disse:
- Poucas são as pessoas que vêm até aqui pela terceira vez e fazem este pedido. Sabedoria tu já tens, Marcus. Falta apenas a paciência. Essa é conseguida através de tua conformidade. E somente tu conseguirá alcançá-la. Apenas tu. Estás afim de aprender?
- Sim, senhor.
- Então, que seja feita a nossa vontade.
Um barulho soou novamente e Marcus acordou. Estava em sua cama. Era de noite ainda e uma garoa fina banhava a cidade. Ele pegou seu carro e foi até o hospital. Sua filha estava lá, em coma, recebendo o medicamento. Marcus sorriu e ficou sentado em uma cadeira. A noite inteira.
De manhã, uma enfermeira o acordou:
- Senhor Marcus?
- Sim? - acordou, assustado.
- Sua filha, Marina.
Marcus estava preparado. E conformado. A notícia não o abalaria. Talvez por ele enxergar que por mais que as coisas possam ser evitadas, se tiver que acontecer, vai acontecer. E o que Deus quer é que a gente aprenda a se conformar com a realidade, porque a vida não é fácil, e o mundo é realmente cruel.

1 análises:

Cris disse...

Nossa que lindo....
Um incompleto tão completo, é tão ruim perdemos aquilo que é tão importante para nós. Ouvi um depoimento de um homem, que colocou como objetivo de sua vida "não perder aquilo que havia conquistado", isso em um sentido bem material tem um certo sentido, mas e se for algo que vai além do homem? Perdemos amor? Perdemos felicidade? Perdemos carinho?