quarta-feira, 10 de setembro de 2008

[O Apadrinhado] Prólogo

– Miguel? Que lindo nome! É o nome do Arcanjo que derrotou Lúcifer, sabia? – perguntou a gorda e simpática senhora do hospital.
– Lúcifer... – sussurrou Miguel.
O garoto ainda estava atordoado em seu quarto de hospital. A enfermeira, depois de aplicar o antibiótico no mesmo tubo em que Miguel recebia o soro, sacudiu uma ampola e disse:
– Beba este aqui com água depois da janta. Daqui a pouco o médico virá colher o líquor da sua espinha pra ver se já poderá receber alta.
– Tudo bem –, respondeu Miguel.
– Há quanto tempo está aqui? – perguntou a enfermeira.
– Hoje faz treze dias.
– Já, já estará saindo daqui. Meningite é realmente uma doença forte. A sua sorte é que não foi das piores.
– Não é meningite.
E mais uma vez o garoto era ouvido como delirante. Apesar de responder com respostas “atravessadas” e curtas, ele é uma boa pessoa. Mas de uns tempos pra cá ele parecia um tanto quanto agitado, transtornado. Ele, apesar de parecer comum, tinha algo de diferente. Tinha algo que raríssimas pessoas têm. Não se pode chamar de problema, uma vez que isso era um privilégio. Também não se podia chamar de privilégio, porque isso era um problema. Todos que o conheciam, naquela hora, já sabiam que ele não estava ali naquele hospital por conta da meningite. Essa “coisa” diferente que ele tinha, uma vez segredo absoluto, já era de conhecimento de todos agora, conseqüência do afastamento dos amigos, das garotas, e até de sua família. Antes de estar ali, ele tinha um emprego. Antes de estar ali, ele fazia faculdade. Mas tudo o que sobrou pra ele, depois de anos escondendo e anos convivendo com isso, era apenas aquele quarto de hospital. Sem visitas. Sem telefonemas. Apenas o quarto de hospital.
Pelo menos algo estava completo para Miguel: a vingança. A deliciosa, saborosa e destrutiva vingança. Inimigos que não se contavam. Inimigos capitais. Inimigos conhecidos. Inimigos desconhecidos. Estavam todos derrotados naquele momento. Miguel vencera todas as guerras que havia tido. Vencera todos os seus inimigos, inclusive ele mesmo.

Já estava de noite e ele estava assistindo a mais um capítulo de alguma novela que passava todos os dias na televisão. Foi quando a moça do jantar entrou no quarto com a comida. Cheirava bem. Apesar disso, não abriu o apetite de Miguel.
– Não vai comer? – perguntou a moça que lhe trouxe o jantar.
– Não.
– Não está com fome?
– Estou.
– Então por que não come?
– Não gosto do gosto do remédio que terei que tomar depois que eu comer – respondeu o garoto.
Era mentira. Ele estava mesmo sem fome. Tudo o que aconteceu com ele nos últimos 2 anos não saíam da cabeça dele. Há 2 anos ele recentemente tinha 18 anos de idade. Carro, balada, faculdade, liberdade.
Foi então que finalmente apareceu uma visita.
– Com licença, meu filho! – pediu um velho homem.
– Entra. Senta aí, padre.
O velho homem puxou uma poltrona que havia ali por perto e sentou-se. Tirou o chapéu e colocou em cima do frigobar. Pigarreou e disse:
– Como se sente, meu filho?
– Sem um pedaço de mim, padre.
– Esse pedaço... você se refere... a ele?
– Não. À minha vida, se é que já tive uma.
– Sim, meu filho, você já teve. Antes de ele aparecer, você tinha.
– Huh, você não me conheceu, padre. Você nunca me conheceu. Vivi com isso desde que nasci. Ele apenas explodiu.
– Conheço vários casos. Sei que não é verdade. Isso só acontece quando você passa pra segunda fase da sua vida. Isso só acontece quando se completa 14 anos de idade.
– Não, padre. Comigo foi desde o nascimento.
– Desde o nascimento?
– Você quer saber como foi, padre? Quer saber como eu era antes de você me conhecer?
– Seria fascinante!
Miguel virou para o lado, desligou a TV e sentou-se em sua cama.
– Padre, por que veio me visitar? Por que logo você? Digo, nem o meu próprio pai veio me ver desde que entrei aqui!
– Foi assim com Jesus Cristo também, meu filho. Acredito que se sua mãe ainda estivesse viva, ela estaria aqui conosco. Assim como Jesus, você está abandonado. Por mais que você tenha salvado as pessoas, por mais que você tenha usado aquele mal que você tinha pra fazer o bem delas, elas no final acabaram te abandonando. Mas nem por isso você virará suas costas pra elas. Dê o seu sacrifício e seja reconhecido pelo Santíssimo.
– Padre, eu não sou Jesus. Não consigo fazer isso. As pessoas me deixaram por simples medo? Eu não consigo entender.
– Eu vim te visitar. Isso não significa que não tenho medo.
– Padre, foi você quem o tirou de mim. Foi você quem tirou o Loki de mim.
– Falar o nome dele não seria muito apropriado, não acha?
– Ele não volta mais. Não mesmo.
– Você disse que ia contar como era a sua vida. Comece!
Miguel arrastou a bandeja de comida até ele e começou a comer. Depois de engolir a primeira garfada, começou:
– Vou demorar muito pra contar tudo desde o início. Mas vou começar do básico: você, mais do que ninguém, sabe que as coisas aparecerão pra você apenas se você acreditar. Se você pára de acreditar que elas existem, elas simplesmente somem. No caso de demônios, eles só vão aparecer praqueles que acreditam que eles estão ali. No início eu tentei colocar na minha cabeça que eles não existem. Por mais que eu ouvisse e os visse, eu tentava acreditar que eles não existiam. Mas eu não conseguia. Loki, desde quando eu tinha 3 anos de idade, falava comigo. Ele me induzia, ele me distraía, ele conversava comigo. Ele me protegia, ele me ajudava. Loki era meu amigo, padre. Até os 12 anos, quando ele simplesmente desapareceu.
“Quando eu era criança, ele me dava conselhos. Ele falava o que eu devia fazer, ele me soprava respostas na prova, ele brincava comigo. Mesmo todos achando que eu tinha só um ‘amigo imaginário’. Eu fui crescendo e ele foi me dando mais dicas. Falava como eu tinha que fazer pra conseguir beijar as menininhas da minha idade, falava o que eu tinha que fazer pra conseguir sair escondido da minha mãe pros lugares que ela não deixava eu ir, falava até pra eu não desobedecer a minha mãe em certas ocasiões.
Minha mãe. Talvez ele tivesse uma ligação com ela. Talvez não. O senhor não chegou a conhecer a minha mãe, padre. Ela era uma pessoa muito religiosa. Ela era a melhor mulher do mundo. Pra ela tudo tinha jeito. Pra ela tudo estava bem. Por mais triste ou negativo que fosse, minha mãe conseguia sempre mudar a situação, inverter o jogo. Talvez ela fosse tão boa que Deus a quis mais perto. Quando eu tinha 12 anos ela foi seqüestrada, padre. Dois homens em uma moto roubada desceram, agarraram minha mãe e levaram pra longe. Dois homens sem capacete. Dois homens cujos rostos eu jamais esqueceria. Tiraram a minha mãe de mim. Ali na rua só ficou eu e meu pai, estáticos, imóveis, não acreditando no que estava acontecendo.
Esperamos a ligação deles, mas em uma semana não recebemos nada. E nessa uma semana, quando eu mais precisei do apoio do até então meu amigo Loki, ele desapareceu. Foi então que as buscas pela polícia começaram, e depois de mais 5 dias de angústia, foi encontrado um cativeiro com o corpo de 6 mulheres nuas, ao lado de seis facões pintados com 6 cores diferentes. E um daqueles corpos violentamente abatidos, destruídos, estuprados... um daqueles seis corpos, padre, era da minha mãe. Da minha heroína. Da mulher que resolveu dar sua vida a envolver-nos no que estavam fazendo ali. Ela e mais cinco mulheres. Outras 3 se apresentaram mais tarde dizendo que elas também haviam sido seqüestradas, mas ligaram pra família, que pagou o resgate e foi chacinada logo em seguida, restando apenas a mulher. Minha mãe sabia que isso ia acontecer. Por isso que ela e mais cinco mulheres se negaram a fazer isso...”
O padre estava chocado do modo em que Miguel havia perdido sua mãe. E mais chocado pela frieza em que ele lhe contava tal acontecimento, sem lágrimas nos olhos, sem olhares distantes. Contava como se fosse um acontecimento comum.
– Vou ficar aqui com você, meu filho. Vi que você tem muita história pra contar e muita coisa pra desabafar. Fique tranqüilo, eu lhe farei companhia até conseguir sua alta. Enquanto isso, vamos conversar. Conte-me cada detalhe de sua vida tendo um demônio como padrinho seu.
Miguel levantou-se, encostou a bandeja perto da porta e tocou a campainha.
– Padre, eu agradeço. Você, o único que se apresentou e conseguiu me exorcizar... Apresentou-se inicialmente como inimigo, mas agora é o meu único amigo... Muito bem, fale para a enfermeira que você será o meu acompanhante. Hoje eu vou contar do primeiro dia em que Loki voltou à minha vida...

--------------------------------------------------------------------------

Esta é uma obra que inicialmente eu ia tentar publicar em um livro. Mas resolvi colocar aqui no Castelo de Marfim. Quero saber a opinião de vocês sobre todos os capítulos que tentarei colocar aqui com a maior freqüência possível.

"O Apadrinhado" conta a história de um jovem garoto que desde criança mantinha relações de amizade com um demônio. Com a morte da mãe do garoto, o demônio ausentou-se por um tempo, para depois retornar e voltar a ser seu amigo (ou não).
Muitas histórias, acontecimentos, relacionamentos e distúrbios foram encontrados por Miguel durante os último 2 anos, que foram os mais marcantes de sua vida (se é que ele já teve uma).

Ariel Salgado Nascimento.