"Estava quase no final do expediente. Gabriel, um garoto que estudava e trabalhava comigo, um grande amigo que eu tive, estava um pouco agitado.
– Cara, tem um trabalho pra entregar quarta-feira e ainda não fiz nada!!
– Relaxa, irmãozinho! – eu disse – Hoje ainda é segunda-feira!
– Mas Miguel, o trabalho é pra depois de amanhã!!
– Mas hoje a gente não tem a primeira aula. Nenhuma segunda tem primeira aula. Então vai pra casa, descansa, e começa a fazer o trabalho. É coisa rápida, meia hora você termina.
– Mas e sua carona pra facul?
– Nem esquenta comigo. Hoje eu também vou relaxar um pouco em casa e tirar essa maldita gravata.
Gabriel relutou um pouco. Ele é maçom, sabe? Igualdade, liberdade e fraternidade. Eu havia conseguido o emprego pra ele ali, então ele, seguindo a filosofia da fraternidade, sempre queria me agradecer de alguma forma. Mas insisti que ele fosse pra casa naquele dia.
Com a aula começando as 21:20, eu voltei do trabalho pra casa, tomei um banho, relaxei e depois fui pra aula.
Porém, assim que saí de casa, senti um calafrio. Fazia tempo que eu não me sentia daquele jeito. Naquela noite eu senti que alguma coisa horrível aconteceria comigo.
Eu geralmente pego três ônibus até chegar à faculdade. Tem o caminho de dois ônibus, mas o de três eu consigo chegar com 20 minutos de antecedência. Assim que desci do primeiro ônibus, caminhei esperto até o ponto onde eu pegaria o segundo. Havia um homem suspeito, mas fiquei bem atento. Pra falar a verdade, eu não via a hora do ônibus chegar, para cessar as encaradas que eu recebia daquele sujeito. Enfim, o ônibus. Eu subi, ele ficou.
Tive um pouco de dificuldades de entrar, pois estava bastante cheio. Procurei um local para sentar. Achei uma cadeira livre no fundão, última fila. Foi lá que eu sentei. Desencanei do mau pressentimento e relaxei, ouvindo música e de olhos fechados. Foi quando o cara do meu lado levantou-se e deu sinal. Ele desceu no ponto. O que estava na minha frente então mudou de lugar, sentando-se do meu lado. Puxou minha camisa, dizendo:
– Aí bacana, não se mete e manda logo esse celular bem louco aí, rapidinho, vai, vai, vai!
Eu olhei pra ele com um certo desprezo que não me era comum. Em uma situação qualquer eu simplesmente passaria o celular que eu tinha no meu bolso e morreria o assunto por ali. Mas daquela vez, por alguma razão inexplicável, hesitei. Foi então que eu percebi que eram dois moleques. Havia mais um na minha frente que gritava com olhos furiosos:
– Acho que você não tem medo né seu playboy filho da puta! Passa logo essa porra antes que eu encha sua cara de pipoco!!
Foi então que a ficha caiu. Eu realmente estava sendo assaltado. Dentro do ônibus. Quarenta pessoas ali, paradas, hipnotizadas pelo medo que tinham de serem atacas por aqueles delinqüentes. E os dois gritando, com raiva, com um ódio de alguém que parecia me culpar pelo fato deles pertencerem a uma classe menos favorecida, tendo que apelar para o roubo para cheirar a pedra de cada dia e fugir da realidade que ele se encontrava. Ele queria o meu celular, nem que pra isso tivesse que tirar a minha vida. Eu havia juntado alguns salários pra conseguir comprá-lo, mas não consegui ficar nem 3 meses com ele. Não era tão caro, qualquer 300 reais conseguia comprar. E o mais irônico é que no mesmo dia, de manhã, recebi uma proposta de assegurar meu celular pagando R$ 2,00 por dia para a operadora e recusei. Muito bem, lá estava eu, passando um pedaço do meu suor praquele cara que eu mal conhecia, mas que estava disposto a tirar a minha vida.
– Esse celular é legal hein! – disse o gordinho do meu lado, assim que o pegou.
– Vai, o fone também! – gritou o da minha frente, o mesmo que me ameaçava violentamente.
Eu olhava para o cobrador, mas ele, junto com os demais passageiros, estavam paralisados.
– Vai, playboy de merda! Dá o dinheiro!
– Eu não tenho dinheiro! – respondi.
– DÁ A MERDA DO DINHEIRO!!!
– EU NÃO TENHO DINHEIRO!! – gritei, exaltado e alterado pela adrenalina.
– Pára de gritar, porra! Dá logo o dinheiro!
– Eu não tenho dinheiro! Só papel e documento na carteira!
– Dá essa porra aqui, vai!
Com violência, ele arrancou minha carteira de minhas mãos, enquanto o outro tirava o meu relógio. Depois, enquanto o que estava do meu lado tirava o meu colar, o da minha frente gritava, dizendo que queria minha blusa. Tirei a blusa e dei pra ele, que imediatamente vestiu. O gordinho pegou minha mochila por uma alça. Pela outra eu segurei.
– Pô, minha mochila não! Meu material da escola...!
– Larga a mochila!! – ordenou o violento.
Os dois começaram a balbuciar frases como 'playboy tem que se foder' ou 'por que não mata logo esse playboy de merda?'. Mas o som estava ecoando baixo pra mim. Meu corpo tremia, eu sentia vontade de chorar. Foi quando o violento olhou pra mim e disse:
– Tá olhando o quê? Pára de me olhar, porra!
E me deu um tapão no rosto. O gordinho puxou o meu cabelo, me jogou no chão e me deu um chute no estômago. O violento, por sua vez, me deu um pisão nas costas. Eu não aguentei. Chorei. Chorei de dor. Chorei de raiva. Chorei de impotência. Meu corpo ainda tremia. Enquanto isso, os dois riam enquanto esperavam o motorista parar no próximo ponto para eles descerem.
Foi nesse instante que eu senti, padre. Senti o meu corpo agindo sem minha vontade. Eu tentei segurar, mesmo não entendendo o que estava acontecendo. Eu tentei, fiquei ali parado, me segurando. Se eu me movesse, poderia morrer. Foi aí que ele voltou.
'Vai mesmo ficar aí parado?' disse ele, em minha mente.
'Quem é você?' perguntei.
'Não, não sou o sua consciência não. Não se lembra de mim?'
Eu não respondi. Ele deu uma risada e disse:
'Hah, como você cresceu, meu filho!! Bem, olhe bem para aqueles dois garotos.'
Eu olhei. Estavam saciando a vitória deles. Estavam curtindo o momento.
'Eles, em alguns minutos, arrancaram o que você demorou 3 meses pra conseguir! Acha isso justo? Se você fosse mesmo playboy como eles estão dizendo que você é, estaria no mínimo dentro de um carro, não socado com mais quarenta medrosos dentro de um ônibus. Acha mesmo isso justo?'
'O mundo não é justo. Não sei quem é você, mas não adianta tentar me fazer reagir. Tem muita gente aqui.'
'Você tem uma memória fraca, meu filho. Não se lembra do seu melhor amigo?'
Foi então que eu lembrei dele. De olhos arregalados, eu disse, em meus pensamentos:
'Você voltou?! Aonde estava esse tempo todo? Eu precisei muito de você, sabia?'
'Sim, eu sabia, meu filho. E é exatamente por isso que eu me ausentei. Com a morte de nossa querida mãe, achei que precisasse mais de mim do que nunca.'
'Então por que foi embora?'
'Depois eu te explico, garoto. Agora você tem algo mais importante pra fazer: recuperar o que é seu.'
'Como vou fazer isso?'
'Não se preocupe, eu faço isso pra você. Mas, para que não coloque a vida de outras pessoas aqui em risco, é melhor esperar que eles desçam do ônibus. Aí é só correr, descer e dizer o meu nome. Diga o meu nome que então eu ajudarei.'
Eu fiquei meio assustado e com medo. Mas ele, naquele momento, era o mais próximo de amigo que eu poderia ter. Finalmente o motorista parou o ônibus em um ponto sem nenhum movimento, dentro do bairro. Os dois garotos desceram gritando:
– Valeu motorista! Hehehehe!
– É, a noite foi boa! Valeu!
Antes da porta fechar, corri e também saí. Imediatamente os dois perceberam e se viraram.
– O que pensa que vai fazer, seu playboy de merda? – perguntou o violento, com uma expressão terrivelmente ameaçadora e com a mão direita na cintura, segurando o revólver.
– Eu vim buscar o que é meu. – respondi, dizendo logo em seguida, em voz baixa: – Loki.
Foi então que eu apaguei. Foi uma experiência como eu nunca havia visto antes. É como se eu tivesse, naquele instante, me projetado pra fora do meu corpo, deixado que outro assumisse o controle.
O elemento apontou o revólver em minha direção e disse, gritando:
– Vá se foder, seu merda!! Não te matei mas você merece morrer! Veio buscar o que é seu? Então toma!!
E atirou. Um tiro que varou minha cabeça, me jogando no chão. Dois outros tiros que vararam o meu peito. Eu estava morto. Eu havia visto, como um espectador, alguém me matar. E mais uma vez nada pude fazer. Tentei gritar, mas a voz não saía. Tentei chorar, mas lágrimas também não saíam. Foi então que eu vi, e na mesma terrível surpresa que os dois bandidos ficaram, eu me encontrei. Meu corpo levantou-se, sem apoiar no chão, como se do mesmo modo em que caí, voltasse a fita. Eu estava de olhos fechados, sangrando. De repente, ao abrir os olhos, as balas saíram com força do meu corpo, fechando imediatamente minhas feridas. Aqueles olhos de íris vermelha e pupila amarela. Foi então que percebi que Loki estava dentro de mim. Ele colocou as mãos no bolso e deu um enorme sorriso insano. Um sorriso malígno e doente.
– Que merda é essa?! – perguntou o gordinho.
O que estava armado tentou dar mais dois tiros, mas as balas explodiram antes de tocar o meu corpo. Loki começou a gargalhar.
– Ah, há quanto tempo eu não respiro este ar!! O mesmo ar que está entrando pela última vez em seus podres pulmões!!
Foi muito rápido. Loki, de um segundo para o outro, estava com o pescoço do gordinho em sua mão direita, estrangulando-o.
– Foi você quem me puxou pelo cabelo e que me deu um chute no estômago, né?
No desespero, o que estava armado saiu correndo. Loki continuou com o gordinho, jogando-o com força no chão.
– Deixa eu te mostrar como é ser humilhado por alguém que acha que é mais forte só porque tem uma arminha frouxa nas mãos!! Ha, ha, ha, ha, ha, ha, ha, ha, ha, ha!!
Com um sorriso insano, Loki puxou o cabelo do gordinho e começou a esfregar no chão, fazendo movimentos super rápidos pra cima e pra baixo. Quando já havia destruído boa parte dos tecidos do rosto do garoto, deu um chute em seu estômago que quebrou sua costela. Deu outro chute no estômago que quebrou a espinha. Deu uma gargalhada, abriu a braguilha da calça e começou a urinar no rosto ferido do gordinho que já estava inconsciente. Levantou pelo colarinho, bateu no poste e começou a dar fortes tapas na cara.
– Há, há, há, há, há, há!! Acorda, seu gordo desgraçado!!!
Assim que o gordinho recuperou a consciência, Loki o jogou no chão, fazendo morder a calçada. Com o pé na nuca do garoto, disse:
– Está na hora do jantar, sua bola de carne ridícula!!
Deu um forte pisão na nuca do gordinho. Retirou o celular do bolso do garoto, pegou a mochila, olhou pra cima, inspirou e desapareceu.
O bandido que estava armado corria por uma viela escura, desesperado. Começou a descer um escadão quando Loki apareceu em sua frente.
– Olá!! Ih, há, há, há, há, há!!!
O garoto, desesperado, descarregou o revólver em Loki. As balas, como da outra vez, explodiram antes de encostar no meu corpo. Loki deu um sorriso insano e começou a falar:
– Você, seu ladrãozinho filho da puta, acha que a sociedade tem culpa de você nascer todo fudido e desgraçado? Acha que pessoas inocentes têm que morrer só porque conseguem as coisas que elas querem e você tem que roubar pra conseguir o que você quer só porque acha difícil ter que trabalhar? É mais fácil e mais prático roubar, né? Você, seu filho da puta, acha que é pobre por culpa dessas outras pessoas? Deixa eu te dizer uma coisa: você nasceu desgraçado porque talvez pudesse tirar o atraso e ser um campeão, como essas pessoas que você mata como se fosse formiga. Aliás, você teve a chance de ter uma vitória mais saborosa por ter começado do zero! Mas resolveu jogar tudo pra cima pegando o caminho mais fácil: a violência. Comigo, violência se cura com violência. E eu vou te mostrar o quanto a violência é cruel quando volta contra você.
Loki começou a espancar o garoto, como se ele fosse um boneco. Mas os golpes do demônio eram sobre-humanos. Com um simples soco, ele arrancava pedaços de dentes da boca do desgraçado. Com apenas um chute ele quebrava ossos e destruía tecidos e órgãos internos.
– Sabe o que é mais legal da violência? Quanto mais você pratica, mais ela fica divertida. Sabe de uma coisa, desgraçado? Não vou matar você. Vou fazer como fiz com o seu amiguinho: vou fazer com que você prefira a morte. He, he, he, he, he.... Há, há, há, há, há, há!
Loki pegou dois pregos que tinham no meio do mato que cercava o escadão. Agarrou a mão do sujeito e enfiou o prego debaixo de suas unhas, arrancando gritos e gemidos de sua vítima. Depois de fazer isso com todos os dedos, cravou os dois pregos no chão, agarrou o desgraçado pela blusa e disse:
– Está vendo isso? É a sua consciência cobrando! Ah, como sou ingênuo! Você não tem consciência!!
O garoto olhou desesperado para Loki que não aguentou e começou a gargalhar.
– Ah, você é realmente engraçado! Está praticamente pedindo misericórdia com esse seu olhar. Humilha, bate, mata. Mas quando é você quem está recebendo tudo de volta, implora por misericórdia. Ha, ha, ha, ha, ha, ha!! Você é realmente patético!!
Ele apontou o rosto do bandido para o chão. Com o mesmo sorriso insano, perguntou:
– Está vendo esse prego no chão? Está vendo? Pois então, será a última coisa que verá!!
Com um golpe super forte, atolou o rosto do garoto no chão, fazendo os pregos, mesmo na parte da 'cabeça', perfurarem seus olhos, além de estraçalhar o nariz do moleque, arrancando gritos desesperados.
– Ah, há, há, há, há, há! Como prometi, não vou te matar! Adeus, seu ladrãozinho filho da puta!
Loki recolheu os meus pertences que estavam com aquele cara, guardou na mochila e desapareceu. Perto da faculdade, ele reapareceu, olhou para cima e disse:
– Você está me ouvindo, filho? Não se preocupe, o karma será cobrado de mim. Você não tem nada haver com isso. Bem, me desculpe se fiquei ausente quando mais precisou de mim. É que, como eu vi que você precisava mais de mim depois que perdeu a sua mãe, comecei o ritual dos 6 anos. Este ritual prepara o meu corpo e o seu, para que possamos, juntos, nos tornarmos um só, um ajudando o outro. Espero que compreenda, Miguel.
Ao dizer o meu nome, foi como me tragar pra dentro de meu próprio corpo. Eu olhei para minhas próprias mãos. Estava pasmo.
'Não se preocupe, meu filho. Você está seguro comigo. Não morrerá, não sentirá mais humilhações e não perderá mais. Jamais. Continuarei te ajudando mentalmente, mas quando quiser me invocar, é só pronunciar o meu nome.'
E ali fiquei. Chocado, pensativo, assustado. Meu padrinho havia... regressado!"
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
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