
"Sempre, sempre, sempre concordar, e nunca questionar, diz o otário
Mas hoje, honey darlin, o lance não, não, não, não vai ser romance!"
- Marcelo Nova
Ontem eu estava conversando com uma velha senhora. Ela é muito sábia, afinal, carrega muita experiência em suas costas. Mas às vezes eu acho que as pessoas, muitas vezes com uma capacidade infinita de conhecimento e cultura, se limitam por deixarem de questionar certos bordões ou clichês usados por todos, principalmente por pessoas de idade e bastante religiosas.
Uma das conversas que estávamos tendo era sobre o sonho de qualquer ser humano de se tornar um milionário da noite pro dia, pra nunca mais se preocupar em se matar de trabalhar e viver a vida como fazem 3% da população mundial. Ganhar na MegaSena é um meio de fazer isso.
Conversa vai, conversa vem, ela confessou que a vida inteira jogou na loteria, mas o máximo que conseguiu foi 300 reais acertando a "quadra" da MegaSena (e olha que isso é difícil pra cacete). Aí eu disse que realmente é muito difícil acertar os seis números sorteados, e que às vezes seria até injusto, porque um cara joga a vida inteira nunca ganhou e o outro que jogou três ou quatro vezes vai lá e ganha. Se pensarmos bem, pode ser até que o cara que jogou a vida inteira, se fizesse um investimento a longo prazo com o dinheiro que ele supostamente gastaria com os jogos, teria hoje até mais do que o segundo prêmio que se é sorteado na MegaSena.
Essas foram as palavras da velha senhora: "Ah, mas se eu não ganhei até hoje, é porque eu não mereci. Deus é justo, só me fará ganhar quando eu merecer."
Claro. Eu pare pra pensar. Deus é justo. Eu ainda não mereço ganhar. Ok, mas vamos nos questionar quanto a essa afirmativa: será mesmo que Deus é tão justo assim? Pode parecer blasfêmia para alguns, mas estou apenas usando da dádiva mais importante que Deus deu ao homem: o livre arbítrio.
Quem sou eu pra julgar as pessoas, né? Mas vamos analisar alguns fatos: lembra do Altair? O cara deu o nome dele em um bolão, lá em Limeira, interior de São Paulo, mas não pagou a parte dele. E sabe o que o pilantra fez? Não pagou. O bolão acertou e ele pegou o prêmio. E mesmo já rico, não pagou o bolão. O mundo é dos espertos, né? Pois é, esse esperto foi assassinado alguns dias depois de ficar rico. Aí eu questiono: o pilantra, que passou a perna em todos e ficou rico sem pagar o bolão, realmente merecia o prêmio, mesmo agindo de má-fé? Que todos me perdoem por chamá-lo de pilantra, mas não podem negar que o bonitão quis dar uma de esperto, né?
E o negócio é até mais sério. Se você não tomar cuidado ao questionar os fatos, pode se transformar em um cético, que não acredita em nada sem provas. E se o negócio for entranhar mais ainda, nem mesmo as provas vão te convencer. Vai chegar ao ponto de que você duvidará que você duvida.
Eu não me considero um cético - ainda. Só não consigo entender esse conformismo de algumas pessoas com a "Vontade de Deus". Sim, Deus é o ser supremo, criador do mundo e de todas as coisas que o habitam. Mas será que ele é tudo isso que falam?
Aí cabe a famosa frase de Samuel Joenick: "Deus pode até existir, mas está pouco se importando com os assuntos humanos". Concordo em termos com esta frase. O filho desta senhora que citei no início do texto morreu há alguns anos. Ela não chorou. Enquato recebia os pêsames, ela dizia "Deus quis assim", "Deus sabe o que faz". O filho dela morreu afogado em um rio depois de sentir cãimbra e afundar.
Se tudo acontece pela vontade do "Poderoso Castigador", como diria Jim Carrey no filme "O Todo Poderoso", então qual o sentido do livre arbítrio? Ele te deu a opção de fazer o que bem entende, mas se fizer algo que ele não goste, você será punido. Se chegar a sua hora, ele te levará. Se o mundo precisar ser renovado, ele cataclismará, matando inclusive aqueles que "mereciam ganhar na MegaSena". "Bomba de neutrons não foi Deus quem fez", será que foi a vontade dele que Hiroshima e Nagasaki praticamente sumissem do mapa?
Bem, é isso. Não quero que me considerem um ateu, um herético ou blasfemo. Eu só quis mostrar que, na minha visão, deveríamos questionar mais, pra chegarmos o mais próximo de uma "verdade" que talvez não exista.







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