quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Filha



Ela estava sozinha. Desatenta, distante, distraída. Do outro lado, a mesa do café estava posta. A sala, vazia.

Jovem menina, sempre foi o centro de sua própria atenção. A criança que queria ser adulta. A adulta que queria ser criança.

Sua mãe falou, ela até tentou compreender. Mas uma sombra pairava sobre seus olhos. Sombra intencional. Ela não quer encarar o presente. Ela não quer me encarar.

Ela correu. Não dava pra negar, realmente havia algo de errado.

Entrei em seu quarto, todo pintado. Lá, deitada, ela abafava o choro em seu travesseiro. Sentei-me ao lado dela, repouseu minha mão em sua cabeça, alisando seus cabelos levemente cacheados. Minha voz, calma e suave, mal ressoou quando foi abruptamente interrompida por outra, com uma delicada ira:

– Não me chame de filha! Isso não faz o menor sentido!

Eu continuei passando minha mão em seus cabelos. Ao mesmo tempo em que eu tinha a impressão de que ela estava se acalmando, notava que seu choro era mais intenso.

– Eu posso não ter sido alguém muito presente em sua vida. Posso ter te dado a impressão de que não ligava pra vocês e que fingia que vocês não existiam. Eu realmente não queria que nada disso tivesse acontecido, filha!

– Não me chame de filha! Eu já disso que isso não faz nenhum sentido!

A criança levantou-se bruscamente e fingiu desatar a correr. Seu choro foi mais forte, fazendo-a parar.

– Não me chame de filha! Não faz sentido... não faz! As fotos mostram que não faz! Você nunca esteve com a gente! Você nos abandonou! Eu nem sei direito qual é o seu nome, droga!

Era nítido que ela não conseguia segurar suas lágrimas. Seu belo rosto, vermelho e molhado, possuía uma expressão de raiva carente. Em volta, todas as bonecas e ursos testemunhavam a cena. Eu me levantei. Ela ficou de costas.

– Filha...

Repentinamente, a ela virou-se, atirando-se em meus braços. Com o rosto apertado em meu peito, ela soluçava.

– Está tudo bem, filha. Está tudo bem... Não precisa correr ou se esconder. Você sabe, de qualquer forma, que eu te amo! E essa é minha chance de te mostrar! Eu acredito nisso! Acredite nisso... não espere pelo amanhã, pois pode ser que ele não venha! Por favor, filha! Esse é o meu argumento, minha chance de me libertar. Dê-me este dia, e meu mundo nunca mais será o mesmo.

Ela continuava chorando. E cada vez que soluçava, me abraçava mais forte. Com a voz fraquejada, sussurrou em um tom quase mudo:

– Pai... não me deixe mais!
– Está tudo bem, filha... está tudo bem!



Inspirado na música "Daughter" e "It's Ok" (Pearl Jam)

5 análises:

Anderson disse...

Yo!

Salva mano!

Gostei hein, por um segundo eu imaginei que o cara fosse um assassino tentando matá-la!!! Mas no final, vi que não era nada disso! De qualquer forma, show de bola! Continua nesse ritmo, que tu vai longe hein, fi??!

*~*Mi*~* disse...

Ariel, vira escritor de romances logo, vaiii!
Adoooro seu jeito de escrever, a gente vai vendo a cena e entendendo toda a situação somente no fim! Muuuito Bom!
Esse seu modo de basear-se em letras é fantástico!
O texto e a imagem estão ótimos! Parabéns mais uma vez^.^!

Bjinhussssss!

Pedro disse...

e eu achei que fosse algo relacionado ao tio da sukita,
mas depois fui vendo a similaridade com a música.

boa essa sua capacidade de dramatizar uma música.

nice one!

^_^ Katy ^_^ disse...

mto foda amor...

que triste, mais é a realidade como vc e o Pedro falaram na sala..

Mendonça disse...

ééé Filó !! Ninguem gosta da realidade ! Mas aprendemos muito com ela.....