sábado, 27 de março de 2010
A Carniça Nunca Acaba
Alguém hoje veio me perguntar o resultado do caso dos Nardoni. Quando respondi que não sabia, a pessoa estranhou, achou que eu fosse um desinteressado, que era a minha obrigação saber disso, já que estou estudando Direito.
Correção: é obrigação saber disso quem está estudando jornalismo.
Sim. O "caso Nardoni" deixou de ser discussão há tempos na faculdade, uma vez que nós não nos atemos apenas àqueles fatos que são vulgarizados pela mídia. Esse caso já foi estudado, tudo o que for acontecer agora é relativo apenas à mídia e aos meios de divulgação ordinários.
E eu ainda ouvi a pérola: "Esse caso está sendo como uma copa do mundo nas faculdades de Direito".
Cara, na boa, eu não gosto de dar mais corda a uma coisa tão medíocre. Sim, medíocre. É deprimente ver as pessoas revoltadas na rua, com camisetas e faixas implorando por justiça e pelo fim da violência, sendo que quando os acusados saem dentro do "camburão", este, ao passar pela galera, é recebido com pedradas, voadoras e outras violências. É deprimente ver que a massa fica injuriada só porque sufocaram e defenestraram uma criança de seis anos de idade. Insensibilidade?! Meu irmão, vai na favela, vai lá no morro do Alemão contar quantas crianças morrem todos os dias vítimas do tráfico! E não são defenestradas não, são fuziladas, queimadas, retalhadas. E ninguém se revolta, mesmo sabendo que os caras que as matam não passam nem perto de um julgamento.
Agora eles foram presos. Contudo, não podemos esquecer que o povo é carniceiro. Vão procurar mais um caso banal, desses que acontecem todos os dias, pra cair em cima, enquanto vão se passando esses 6 primeiros anos que esses que foram presos agora vão passar em regime fechado. O nome "Isabella" deixará de ser escrito nos muros e portões, o povo clamará justiça por outra vítima de outro crime bárbaro, e assim por diante.
Eu deixo o sensacionalismo para o Datena. O que eu tô dizendo aqui é simplesmente a realidade. Me deixa revoltado ver o tamanho da cegueira dessas marionetes da televisão! É absurdo! Tanta coisa pior já aconteceu, mas como não foi pra mídica, não teve ninguém pra dar voadora na viatura ou chorar no meio das ruas dizendo que "agora acredito na justiça!".
Daqui a pouco o povo não vai nem mais lembrar dessa coisa toda. Alexandre Nardoni será um personagem esquecido, ninguém nem lembrará o nome da menina que foi vítima do crime e o caso será arquivado em nossas cabeças, assim como a menina que foi sequestrada em casa e acabou sendo morta*, do garoto que foi arrastado pelo carro até a morte porque ficou preso em um cinto de segurança**, ou ainda aquela professora que foi morta por um bandido que a fazia de refém e tomou um tiro mal dado de um policial de elite***, sem esquecer daquela estudante que planejou a morte dos pais com o namorado****. É tanta coisa banal, que existe aos montes, mas que por ter certa ênfase na TV, fica tão irritante.
Vai surgir agora um cara que matou os pais a sangue frio. Ou um pai que estuprou a filha. Ou um torcedor maluco que matou outro por estar com uma camisa diferente. Ou um ladrão de carros que roubou um Fusca, ou um ladrão de galinha que roubou uma garnizé.
Platão foi um gênio. O Mito da Caverna existe até hoje. E a sombra não é nada mais do que a distorção da realidade, do jeito que você quer que ela seja.
Pra recordarem:
*Eloá
**João Hélio
***Geísa Firmo Gonçalves
****Suzane Von Richthofen
quinta-feira, 11 de março de 2010
Invertendo os Valores

Isso foi uma coisa que eu percebi quando tinha 13 anos de idade. Eu me lembro até hoje no dia em que caí na real: menino franzino, cabeçudinho, em cima do telhado numa noite cheia de estrelas ofuscadas e sem lua. É, foi bem difícil para uma criança descobrir e aceitar que o mundo era cruel.
Sim, caros leitores. "Aos treze anos de idade eu sentia todo o peso do mundo em minhas costas. Eu queria jogar, mas perdi a aposta". Naquela época eu estava tentando entender o motivo que levava as pessoas mais burras e fúteis serem as mais badaladas, populares, descoladas. E também tentava entender o porquê que as pessoas que possuíam o mínimo de inteligência, um pouco mais de cultura e interesse por coisas que realmente fariam alguma diferença, eram motivo de chacota e desrespeito.
Dez anos se passaram e não consegui chegar a uma conclusão plausível. A propósito, a coisa tendeu a piorar de uma tal maneira, que se analisarmos com maior frieza, chega perto do inacreditável.
Parar pra analisar. Isso me pareceu uma boa ideia agora. Ou não, depende do leitor. Então, para aqueles que não estão muito afim de entrar no mérito da coisa, recomendo que pulem as próximas 22 linhas.
Não faz muito tempo. Talvez faça um pouco mais do que a minha própria existência, o que não é muito, se observarmos de um certo ângulo. As músicas que eram sucesso há 30 anos eram aquelas cantadas na chamada Jovem Guarda, geralmente falando de amor ou das aventuras de um rapaz rebelde. Pessoas inteligentes eram respeitadas pelo que elas tinham pra ser legal, e pra ser esse alguém legal, tinha que ter cérebro. Pra fazer sucesso, a pessoa tinha que ter um talento incrivelmente grande, a ponto de chamar a atenção da mídia pra poder rolar alguma coisa. A balada, segundo as pessoas que viveram naquela época, era divertida, mesmo não rolando sexo nas primeiras 12 horas de convívio com alguém que talvez não se veria nunca mais.
Se alguém acha que estou falando só coisas que pessoas velhas falam, me avisem. Porque, sei lá, isso pode ser irrelevante pra algumas pessoas, principalmente praquelas que hoje não tem sequer um pedaço do cérebro que raciocine, e se acha o "cara" por isso.
Sim, hoje a inversão de valores se deu por completo. Inteligentes zombados, bestas quadradas e vadias fúteis sendo idolatrados, gente que não leva jeito pra atuar/cantar/dançar sendo forçados por nossas gargantas, para engolirmos o fato de que eles são celebridades e precisam fazer alguma coisa, mesmo sem saber.
E "os cinco minutos de fama" já viraram anos.
Bem, pensei nisso tudo ainda hoje, algumas horas atrás. Estava eu estacionado no trânsito da Avenida Rebouças, na capital de SP, tentando vencer a guerra pra chegar em casa. Eu, como sempre, estava ouvindo meu roquezinho antigo, daqueles que não tem perigo de afetar ninguém. Ainda mais dentro do carro, com as janelas fechadas. Deu até pra cantar.
Mas vocês sabem como é a ironia, não sabem? Entre uma música e outra, sempre tem aquele "Fade Out", aquela pausa de meio segundo onde tudo fica um silêncio até o início de outra música. Pois é, nesse nano-segundo eu pude ouvir o carro do lado (um Kadett vinho com insulfilm roxo, adesivo "1DASUL Capão-SP" no vidro de trás e "Suave na Nave" no pára-brisa) estourando os auto-falantes, módulos e sub-whoofers num pancadão recheado de palavras que muita gente nem nunca ouviu na vida. E a música que tocou no meu rádio em seguida foi justamente "Beth Morreu", do Camisa de Vênus.*
Um simples funk pancadão me fez pensar nisso tudo.
Se você for reparar na música, consegue ver escrachadamente a guinada violenta que a inversão dos valores deu nesses últimos... dez anos. Há esse tempo, já estava começando a inverter, de modo que já tínhamos músicas sujas e de palavreado baixo, como o caso de Raimundos e Mamonas Assassinas. Mas se vocês perceberem, a letra tinha sentido, era inteligente (principalmente no caso dos Mamonas) e não era incitação clara à violência e ao sexo sem compromisso. Tinham aqueles axés loucos, mas até eles não eram tão agressivos como o "funk rala coxa".
E até hoje eu procuro a resposta para a questão que formulei a mim mesmo há 10 anos. Mas toda vez que estou quase conseguindo chegar ao denominador comum, volto à estaca zero. Aliás, estaca menos um, descrescendo cada vez mais. Talvez isso tudo tenha haver com o bum de carros de São Paulo, causando um estresse geral. Talvez seja o fluxo natural das coisas. Como Nietsche dizia, "tudo é água".
*Pra quem não entendeu, "Beth Morreu" retrata o quão inútil é levar uma vida fútil, cheia de status e hipocrisia, sendo que uma hora isso tudo vai pra baixo da terra.
Relações:
O Mundo e Suas Crueldades,
Tecido de Palavras
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